Tecnologia e Letramento  Resumo do Projeto


O "Projeto de integração das tecnologias da comunicação ao processo de letramento do surdo" é um projeto de pesquisa que coloca em colaboração professores-bolsistas da Escola Municipal de Educação Especial (EMEE) Anne Sullivan e pesquisadores da Escola do Futuro, USP, na busca de materiais e métodos que ajudem a melhorar o desempenho dos alunos surdos no que diz respeito à leitura e escrita do Português. A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), dentro do seu Programa de Melhoria do Ensino Público.

A pesquisa envolve, atualmente, como bolsistas da FAPESP, onze professores, uma bibliotecária com bolsa de Treinamento Técnico e um aluno de graduação em Letras/USP com bolsa de Iniciação Científica. Conta também com a colaboração de dois professores doutores voluntários, quatro pós-graduandos em Letras da Universidade de São Paulo, e uma aluna de graduação em Rádio e TV/USP em Trabalho de Conclusão de Curso.

A pesquisa procura desenvolver duas linhas de atividades paralelamente:

Uma delas enfatiza o trabalho com os professores na compreensão dos processos de aprendizagem da língua, especificamente da leitura e escrita. Esse trabalho envolve estudos teóricos sobre língua e aquisição de língua; sobre desenvolvimento de capacidades comunicativas e o domínio dos usos sociais da língua; sobre leitura e escrita; sobre metodologia de ensino; e sobre recursos tecnológicos disponíveis para auxiliar o ensino.

A outra linha de atividades vem procurando desenvolver, no âmbito da escola, uma Midiateca, ou centro de recursos para a informação e aprendizagem, utilizando-se das tecnologias da comunicação para enriquecer o contato que o aluno surdo tem com o mundo da informação e preparando-o para ser um usuário proficiente da informação necessária para o exercício pleno da cidadania.

A Midiateca está sendo realizada para exercer duas funções. Ao ser integrada ao currículo, sua função principal é a de desenvolver a capacitação nas práticas e habilidades informacionais, ou seja, desenvolver o letramento informacional, fazendo com que a informação coletada tenha significado para o processo de construção do conhecimento do aluno. A segunda função é a de servir como centro de recursos instrucionais para professores e pais de alunos surdos - para subsidiar sua compreensão das necessidades e da realidade social dos surdos - bem como para a comunidade surda, disseminando em website via Internet assuntos relacionados à surdez e à cultura surda.

O projeto, que começou em fevereiro de 1997 e tem uma duração de quatro anos, encontra-se no começo do seu quarto ano.

Nesses três anos, os trabalhos têm sido desenvolvidos por quatro equipes de pesquisadores. Esses quatro grupos são:

Grupo de Pesquisa sobre Leitura e Escrita
Grupo de Pesquisa sobre Relações Família-Escola
Grupo de Pesquisa sobre a Implantação da Midiateca
Grupo de Pesquisa sobre Softwares Educacionais

Até agora, os resultados de pesquisa têm levado o grupo de pesquisadores aos seguintes posicionamentos:

  • O fator principal no desenvolvimento do aluno no ambiente escolar é a quantidade e a qualidade de interação social e lingüística à qual ele tem acesso;
  • Como a língua de sinais é a única língua que o surdo pode adquirir com alto grau de fluência, esta deve ser usada na comunicação com a criança surda o mais cedo possível e deve ser cultivada na escola a fim de formar a base do seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional; isso exige dos professores maior fluência em língua de sinais;
  • A escola deve incentivar a comunicação entre pais (na maioria ouvintes) e seus filhos surdos, apoiando o uso do contato físico, do olhar, de gestos e da língua de sinais; essa comunicação deve incluir a contação de histórias e o uso da língua para a negociação de atividades e para a externalização dos sentimentos e de processos de raciocínio;
  • A habilidade de compreender e de contar uma história é um aprendizado fundamental para preparar o aluno para qualquer trabalho com texto; essa habilidade é mais facilmente desenvolvida em sua língua materna e fluente, a língua de sinais; sua compreensão da forma da narrativa como um gênero contribui, depois, para sua compreensão da leitura em português;
  • A língua de sinais é uma língua natural que demonstra todas a características de qualquer outra língua humana; não é um mero conjunto de gestos; têm uma gramática complexa e sutil que na maioria das vezes é ignorada pelos professores que usam sinais com seus alunos;
  • Nenhuma língua pode ser aprendida por partes, através de palavras isoladas ou de textos sem sentido; a língua é um instrumento de comunicação, de expressão e de elaboração do pensamento, e é aprendida através do seu uso comunicativo e expressivo;
  • Os alunos, percebendo o envolvimento dos professores e dos pais em aprender a língua de sinais, se empenham em ajudá-los, estabelecendo assim maior equilíbrio de poder entre professor, pai e aluno, e dando ao aluno maior auto-estima;
  • Os professores, por não enxergarem o mundo como o surdo o enxerga e por aceitar inconscientemente a noção de que a surdez é uma deficiência e o surdo um deficiente, podem alterar suas expectativas para com seus alunos; esperam níveis baixos de desempenho e assim ajudam a provocar, com essa atitude, os próprios níveis esperados;
  • Apesar da comunicação através da língua de sinais ser fundamental para o aprendizado do aluno, não é o suficiente; os professores devem se empenhar em desenvolver uma didática mais apropriada, garantindo a contextualização e a significação das atividades e criando oportunidades para a comunicação e para a auto-expressão dos alunos;
  • Não existe um único método de ensino de leitura e escrita para o surdo e muito menos existe a possibilidade de achar um software ou uma técnica que resolva todos os problemas de ensino-aprendizagem; as maneiras dos alunos lidarem com a língua oral e a língua escrita são muito variadas e exigem do professor uma grande atenção ao comportamento do aluno e uma flexibilidade de atuação dentro do movimento da aula;
  • Softwares podem ser úteis para atividades pedagógicas pelo fascínio que despertam no aluno e pela autonomia que o aluno desenvolv através da criação de textos com desenhos, histórias e outras apresentações de autoria;
  • Alunos e pessoas surdas de forma geral são excluídos do acesso à informação em instituições como as redes de bibliotecas públicas e nos meios de comunicação de massa; suas necessidades especiais de comunicação (o uso da língua de sinais e de legendas em closed-caption) são ignoradas, e existem pouquíssimos materiais educacionais e culturais de qualidade acessíveis especificamente por esse setor da população;
  • As pessoas surdas sofrem outro tipo de exclusão sociocultural devido à falta de publicações que tratem dos seus interesses e que o representem adequadamente, sem preconceito.

Essas são apenas algumas das idéias que estão se tornando cada dia mais claras para as pessoas envolvidas nesta pesquisa. Elas são explicitadas e justificadas em maiores detalhes nos relatórios e nas produções dos grupos.

Leland E. McCleary
Coordenador do Projeto